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USCS participa de mesa redonda sobre os projetos Gripen e Embraer/Boeing

Com a colaboração do Prof. Dr. Jefferson José da Conceição

No dia 22 de junho, o Prof. Dr. Jefferson José da Conceição e o Prof. Ms. Volney Gouveia, membros do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS, participaram da Mesa Redonda “Os casos Embraer-Boeing e Gripen: consequências geopolíticas e estratégicas”. O debate foi promovido pela Fundação alemã Friedrich Ebert (FES), por meio do Grupo de Relações Internacionais.

Participaram ainda da Mesa Redonda outros especialistas ligados ao BNDES, universidades e sindicatos. O Projeto Gripen refere-se à compra de 36 aeronaves supersônicas pelo Governo Brasileiro. Já o projeto Embraer-Boeing, diz respeito às recentes negociações de compra da empresa brasileira Embraer pela americana Boeing, que tem suscitado importantes questionamentos sobre a perda de autonomia tecnológica brasileira.

Prof. Jefferson, que é coordenador do Observatório e ex-Secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo do Campo (2009 a 2015), falou um pouco sobre a experiência em ter participado das negociações internacionais, juntamente com representantes do Governo Sueco, da empresa Saab e do Governo Brasileiro, para a constituição de uma unidade de produção de partes e componentes da produção da aeronave supersônica Gripen na Região do ABC Paulista – cuja pedra fundamental acaba de ser lançada em São Bernardo.

O professor destacou também a importância para as universidades do modelo “tríplice hélice”, que valoriza a construção conjunta pelo Governo, setor produtivo e universidade, em torno de projetos nacionais estratégicos, especialmente aqueles que envolvem pesquisa, desenvolvimento e inovação, e do “learning by doing'” (“aprender a fazer uma aeronave supersônica”), como é o caso do projeto Gripen.

Já no caso da parceria Embraer-Boeing, o professor afirma que “é preciso estar bastante atento para que a tecnologia, arduamente adquirida pela empresa e sociedade brasileira desde 1969 (ano da sua fundação), não seja perdida com a parceria ou até a venda da Embraer”.

“O Brasil precisa, de fato, investir em projetos estratégicos como o de participar da produção da aeronave Gripen e da maior inserção de empresas multinacionais brasileiras, como a Embraer, em cadeias globais de valor. Mas, em todos os casos, é fundamental exigir contrapartidas claras por parte das empresas beneficiadas pela Política Industrial, como metas de desenvolvimento de fornecedores nacionais; envolvimento obrigatório das universidades nacionais em P&D, bem como metas de exportação e emprego”, conclui o professor.

O Professor Volney Gouveia, gestor do mais recente curso da USCS, o de Ciências Aeronáuticas, detalhou ainda mais sua posição: “É preciso fortalecer a posição do Brasil no segmento aeronáutico. O acordo brasileiro com os suecos para a compra de caças para a Força Aérea Brasileira, totalizando algo em torno de US$ 4,5 bilhões até 2022, com garantias de intercâmbio tecnológico e de conhecimento, sugere a existência de caminhos alternativos, podendo a Embraer se apropriar das tecnologias de fronteira e incorporá-las às aeronaves comerciais ampliando sua capacidade competitiva”.

O professor também explica que a maioria das aeronaves utilizadas por empresas brasileiras é de origem estrangeira, apesar de a Embraer ser a quarta maior companhia fabricante de aeronaves do mundo; e que, na aviação comercial, o Brasil está entre os dez maiores mercados do mundo, mas ainda assim com um contingente enorme de brasileiros que nunca entraram em um aeroporto (estima-se algo em torno de 160 milhões).

“Por que então o Estado Brasileiro não coordena políticas de acesso ao transporte aéreo nacional pelos brasileiros, tendo a Embraer como desenvolvedora de uma aeronave exclusiva para atender ao mercado interno? Por que não integrar os interesses da empresa Embraer aos desafios de desenvolvimento do próprio mercado aéreo brasileiro? Por que não produzir emprego e renda dentro do próprio país se temos mercado, tecnologia e expertise para isso?”, questiona o professor.

“A fábrica de componentes aeronáuticos em São Bernardo e a criação do novo curso de Ciências Aeronáuticas da USCS são experiências que evidenciam que há potencial de desenvolvimento do setor aeronáutico no Brasil, cuja cadeia produtiva ainda é pouco internalizada. Qualquer acordo envolvendo a Embraer deve contemplar a produção tecnológica, a geração de emprego e a autonomia financeira internacional, visto que, de 1997 a 2016, o país transferiu US$ 63 bilhões apenas com a compra de aeronaves”, finaliza o professor Volney.